Enquadramento e análise estratégica da área

Apesar da estratégia de Lisboa (2000), a Europa tem vindo a sofrer significativamente com o impacto das economias emergentes, talvez por não ter antecipado a quebra de quadros técnicos na área das engenharias (e afins), áreas que os países emergentes souberem proteger e desenvolver. É notável que em menos de uma década, os países da zona BRIC, tenham passado de produtores de matérias-primas e equipamentos de baixa tecnologia (e qualidade questionável) para líderes da publicação científica e aplicações tecnológicas.

A Europa tem procurado combater este impacto favorecendo a cooperação inter-estados, a centralização da definição de objectivos (através dos programas quadro) e a melhoria das qualificações.  É nesta filosofia que se enquadra a visão europeia para o período de 2014-2020, que define como prioritário o investimento da ID+TI (uma União da Inovação), claramente formulado nos seguintes propósitos:

  • Reformar os sistemas nacionais (e regionais) de I&D e Inovação para promover a excelência e a especialização inteligente, reforçar a cooperação entre as universidades, a investigação e as empresas, recorrer a programas conjuntos e estimular a cooperação transfronteiras em áreas em que a UE proporciona valor acrescentado, adaptando os procedimentos nacionais de financiamento em conformidade, com vista a assegurar a difusão da tecnologia em todo o território da UE;
  • Assegurar um número suficiente de licenciados em ciências, matemática e engenharia e orientar os currículos escolares para a criatividade, a inovação e o empreendedorismo;
  • Dar prioridade às despesas no conhecimento, nomeadamente através de incentivos fiscais e outros instrumentos financeiros, com vista a promover o aumento do investimento privado em I&D.

(COMUNICAÇÃO DA COMISSÃO; EUROPA 2020, Estratégia para um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo)

 

Se a Europa perdeu terreno na sua competitividade global, Portugal, sendo um dos países mais frágeis da EU em termos de produtividade e inovação tecnológica própria, ressentiu-se de forma extrema das dificuldades europeias a nível da competitividade industrial. Vale a pena lembrar que o relatório Porter, realizado em meados nos anos 90 sobre a competitividade da economia portuguesa, valorizava bastante os “clusters” tradicionais como o vinho, o turismo, o calçado e os têxteis e propunha como soluções a melhoria da educação, da capacidade de gestão e a aposta na ciência e tecnologia. Ainda que muitas medidas tenham ficado por implementar, alguns destes sectores acabaram por ultrapassar a crise e destacam-se pela inovação com impacto mundial, tendo mesmo levado à criação de Centros Tecnológicos específicos desses sectores com vista ao seu desenvolvimento.  Também a economia da Madeira depende de alguns destes “clusters” de impacto mundial nomeadamente o turismo e o vinho Madeira.  Seria cada vez mais importante que a região aproveitasse esta experiência e visibilidade global para associar a imagem da tecnologia e da inovação aos seus produtos.

Na Madeira, a área industrial tem sido objecto de anteriores planos de desenvolvimento, nomeadamente o PRAI e PDES, e inseriu-se bem nos projectos INTERREG e MAC, mas é necessário repensar a estratégia para o próximo programa quadro, tendo em conta a crise que avassala a Europa e a consequente reanálise das prioridades. Ao reconhecer as especificidades das regiões, reforçando a necessidade de apoiar os sectores tradicionais (nomeadamente o agro-alimentar) e apostando claramente no aumento da excelência científica nas RUP, através da Investigação e Desenvolvimento para apoio à inovação e à prática tecnológica, a Europa pretende aumentar a sua competitividade global.  A Madeira tem a capacidade e a possibilidade de se integrar nesta visão, estimulando o investimento do sector privado na experimentação, mormente na agricultura e biodiversidade endémica, diminuindo a dependência do turismo e criando novas linhas de desenvolvimento.

A área da Tecnologia e Inovação Industrial cobre na Madeira essencialmente a área alimentar e envolve especificamente um sector tradicional que é necessário valorizar de modo a aumentar a competitividade e a sua internacionalização. As empresas existentes (ou que venham ser criadas na área) não têm dimensão para ter laboratórios próprios de inovação pelo que o grande desafio para a Madeira é diversificar os seus interesses criando condições para o apoio ao acesso à inovação das empresas existentes (ou que venham a ser criadas). Deve ainda ser acrescentado que a região dispõe de excelente capacidade laboratorial e um número crescente de mão-de-obra qualificada que urge aproveitar em benefício da região.

Qualquer política estratégica nesta área terá que ter em conta os pontos fortes e os pontos fracos da actual capacidade da região:

Pontos fortes:

  • A região dispõe de recursos humanos e técnicos de boa qualidade (ainda que dispersos), com experiência e colaborações internacionais
  • Há uma boa rotina de uso dos fundos europeus, incluindo por parte de diversos grupos de investigadores, da universidade e outros
  • Existe uma infra-estrutura de apoio técnico (Madeira Tecnopolo) já instalada e com experiência na implementação e gestão de projectos
  • Existe uma zona franca com potencialidades para atrair empresas de valor acrescentado
  • A economia da região desenvolveu, no passado, capacidade para criar novas valências que vão no sentido de ultrapassar a eventual quebra dos fundos comunitários directos e que potenciam o acesso a outros fundos (projectos europeus).

Pontos fracos:

  • Grande dispersão de recursos (humanos e técnicos)
  • Reconhecida falta de divulgação da capacidade existente, o que limita as colaborações internas
  • Necessidade de manter laboratórios regionais ligados a tarefas especificas regulamentares, que necessitam de integração e maior capacidade de gerar verbas
  • Pouca interacção entre laboratórios (entre si) e a universidade
  • Falta de uma infra-estrutura que seja capaz de congregar os interesses das diversas entidades
  • Falta de apoio laboratorial e de investigação a empresas de valor acrescentado
  • Ausência de uma operação concertada para a atracção de empresas de valor acrescentado (envolvendo as várias entidades intervenientes)
  • A acrescentar à actual crise europeia, os fundos comunitários estão em fase de redução exigindo uma maior selectividade das prioridades

Em resumo, a área da Tecnologia e Inovação Industrial, é uma área abrangente que cobre um sector tradicional da Região, ao mesmo tempo que potencia o aparecimento de novas oportunidades de negócio. Cobre uma área onde a internacionalização é importante (vinho Madeira), tem importantes recursos em termos de investigação e desenvolvimento (nomeadamente na universidade e nos laboratórios regionais) enquadra o sector agro-alimentar que pode ser competitivo (agricultura biológica) e em que a Europa poderá ter alguma dificuldades no futuro pelo que há toda a conveniência para a região dedicar uma atenção especial a esta área de IDTI, nomeadamente no que diz respeito à área alimentar.  Dada a importância da área haveria ainda toda a conveniência em criar na região a capacidade de formação adequada, criando nomeadamente a nível superior uma área abrangente de primeiro e segundo ciclos.  Estes factores poderiam contribuir positivamente para a formação de um “cluster” das Tecnologias e Inovação Industrial fundamental para o desenvolvimento e internacionalização da economia regional, centrada prioritariamente no sector agro-alimentar e podendo abranger áreas afins como a sustentabilidade e a bioeconomia.

Deixe uma resposta

Top